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Diogo Limão

Recursos Humanos

Despedida antecipada

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Hoje sinto tanto a necessidade de escrever, de pôr cá para fora o dia de hoje e tudo aquilo que ele representou para que consiga digerí-lo. Quero recuar àquele sentimento de presença que tinha ao escrever. Esse sentimento que, agora, procuro depois de meses de indisponibilidade emocional. 

 

Sinto forças para deitar a baixo as barreiras que se ergueram diante de mim, impedindo-me de escrever, com presença, verdade e alma aqueles textos que, quando escritos por outros, me fariam parar no tempo e sentir com a pessoa que o escreveu. Tantas vezes abri uma página em branco, para escrever sobre qualquer tema -- pessoal ou profissional -- e simplesmente as palavras não saiam. Não escrevia sentindo apenas escrevia. Soava tão falso que nem eu teria coragem de assumir palavras tão secas, despersonalizadas e externas à minha essência. Essa é a minha escrita: a genuína, que coloca parte de mim nas palavras que escrevo. É hoje, sinto-o, ao deixar fluir os dedos no teclado do computador, dispensando olhar para o monitor. 

 

Chegou finalmente o dia de dizer "adeus". Sinto-o, enquanto esse sentimento transborda de uma tristeza inevitável quando novos desafios se avizinham. Chegou o dia de dizer à Cláudia o meu adeus profissional. É tão oficial o fim contratual como o emocional, aquele que separa o sentimento de pertença de uma presença obrigatória para cumprir com as nossas últimas responsabilidades. Acredito nisto porque depois do abraço de despedida, não senti aquele escritório igual. Serão três dias de fecho de compromissos, despedidas oficiais, formação on-the-job para a qual esforçar-me-ei ao máximo para que tenha sucesso e permita à minha sucessora ganhar asas para assumir aquelas responsabilidades que eram minhas. Mas serão três dias vazios.

 

Perguntam-se quem é a Cláudia? A Cláudia foi a pessoa que me recebeu de braços abertos, me formou e integrou naquela empresa familiar. Foi sempre paciente, compreensiva e atenta às minhas dificuldades. Tudo isto ao ponto de bastar abrir a boca para falar, não o fazendo, e ouvir a pergunta da Cláudia "O que é que precisas?". Isso não tem preço. A separação profissional era inevitável. Sabia-o bem porque sempre sonhei com voos mais altos. Ainda assim, por nenhum momento escondi que "deixar de trabalhar contigo era o que me ia custar mais" e bastou uma hora para perceber isso. 

Só passaram 9 meses, digo para mim mesmo, como não pude esperar um embate emocional tão grande? Bom, eu acho que tenho grande responsabilidade nele: não consigo ser totalmente verdadeiro sem uma entrega a 100%. Cá para mim não há Diogo a 60%, ou coisa que se pareça. Isso seria ter uma máscara que me asfixiaria e me roubaria a genuinidade com a qual procuro viver. 

Não esqueço que a Cláudia foi, tantas vezes, a pessoa que nunca me falhou naquela empresa. À minha volta, vi pessoas a faltarem-me como as notas de quinhentos, e a levarem-me a perguntar o porquê das coisas terem de ser sempre assim. Não são sempre assim. Essa generalização da metalinguagem não faz jus à essência da Cláudia. Foram muitos dias de galhofa -- a falar sobre o Lucky, o Dusty e o Buda --, verdadeiro trabalho em equipa e, tantas vezes difícil de encontrar, uma entreajuda que não cobrava. Acima de tudo, ajudáva-mo-nos mutuamente não porque as nossas tarefas se cruzavam em muita coisa mas porque sim, porque cada um merecia a sua parte de apoio, porque -- quero acreditar -- houve momentos em que tivemos de ser a rede um do outro enquanto nos tentavam empurrar do percípicio. 

A Cláudia merece tudo.

 

Vou continuar a torcer por aquela pessoa, como torço por aqueles que realmente me entraram no coração, torcendo por melhores oportunidades porque, como sempre lhe disse, "não sabes o valor que tens!" e que "tens de deixar de ter avaliar por baixo porque tu és muito boa no que fazes". Vou continuar a chatear-te para tirares o CCP, até à exaustão, porque me faria feliz ver-te a passar para os outros aquilo que me passaste à nove meses atrás.

 

Emocionei-me, depois daquele abraço? Sim, claro, como não o fazer? Digo-o com orgulho porque fui verdadeiro e, bolas!, sempre era uma despedida. Só os fracos se emocionam? Então, fui bem forte porque assumo que não consegui manter a máscara de profissional frio. Haverão mais abraços como aquele. E muita #vida.


Foi fácil escrever este texto? Não, não foi. Mas era necessário e sinto-me bem melhor agora.

 

"You are anything but ordinary, Cláudia".

(Adivinha de onde é esta citação.)

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