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Diogo Limão

Coaching & Recursos Humanos

Espaço RH: Eu, Nós e os Estágios (A Ótica do Eu - Parte 1)

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Hoje, e durante as próximas publicações, escreverei sobre algo que deveria ser falado com maior frequência: os estágios, os seus tipos e benefícios/prejuízos e a utilização -- muitas vezes abusiva -- que é feita, pelas empresas, desta forma de prestação da força de trabalho. Há que mudar mentalidades e é, sobre elas, que venho escrever neste conjunto de textos de reflexão.

 

Para isso, focarei três óticas nas quais vejo importância focar: a Ótica do Eu, uma ótica focada no estudante/recém-formado enquando indivíduo e a sua esfera mais próxima, a sua família, e utilizando as minhas análises pessoais quanto à utilização desta forma de desenvolvimento profissional, dos novos profissionais do mercado de trabalho. De seguida, falo na Ótica do Nós, na qual procurarei focar a minha atenção em questões mais abragentes, quer elas sejam o impacto desta modalidade nas empresas que os procuram como a ideia pré-esbelecida que determinados tipos de estágios são, forçosamente, para algumas empresas, o primeiro passo de um recém-formado no mercado de trabalho. Finalmente, irei forcar, com mais detalhe, os estágios quanto aos seus tipos e implicações, na Ótica dos Estágios. Neste primeiro encontro, debruçar-me-ei pela ótica do Eu.

 

Como forma de enquadrar este tema para o leitor, faço saber que este texto de opinião recairá sobre duas modalidades específicas de estágio: os estágios curriculares -- maioritariamente utilizados pelos planos curriculares dos cursos técnico-profissionais e de nível superior -- e os estágios profissionais -- frenquentemente aplicados sob as regras e retribuição estipulada pelo IEFP, habitualmente utilizados como justificação a primeira experiência profissional do recém-formado e como, acredito, uma forma "experimental" de prestação do trabalho por um jovem trabalhador.

 

Ótica do Eu

Eu sou alguém que acumula já dois estágios curriculares no meu percurso académico/profissional, os quais me têm ajudado a formar uma opinião sobre a utilidade dos mesmos, em que moldes são vantajosos e de que forma são (ou poderiam ser) justos para o estudante/recém-formado, ao nível individual e um nível agregado, falando aqui, do recém-formado enquanto membro de uma família.

 

Acredito que há muitas variáveis a considerar para determinar que tipo de experiência vai um estudante/recém-formado defender, no final do seu estágio. Numa perspetiva de desenvolvimento de uma identidade profissional, os estágios poderão ser o primeiro passo necessário: são úteis na medida em que permitem introduzir o estudante/recém-formado nas dinâmicas organizacionais das empresas, permitindo-lhes ter contacto com problemas reais do dia-a-dia de uma empresa e das suas atividades.

Por experiência própria digo, com certeza, que esses problemas permitem o crescimento do estagiário pela aplicação de uma competência fundamental, nos dias de hoje: a resiliência. O jovem trabalhador deverá ser resiliente para, face às adversidades que irão desenvolver a sua identidade profissional, através da rutura daquilo que ele achava que seria com o que realmente é, cresce e desenvolve-se, enquanto contribui para os objetivos da organização em que se insere. A verdade é que os primeiros meses de imersão à vida profissional vão traduzir-se em muitos momentos felizes, com sentimentos de conquista e dever cumprido, ainda assim, vai haver momentos menos bons, que nos testam a auto-estima e auto-confiança (quem sou eu, profissional?), estando carregados de oportunidades para virar o jogo e aprender daí.

 

Os estágios são como uma estufa profissional: num ambiente controlado, permitem que o estagiário cresça e aprenda os procedimentos, cultura e regras da organização. Permitem dotar o estagiário de uma "prontidão" operacional, que o beneficiará, por ventura, em experiências profissionais futuras. 

 

Como referi, no início desta secção, tive a oportunidade de ser intitulado de estagiário por duas vezes. Ambos estágios curriculares, cada um deles com a duração de três meses, nos quais os dois estágios terminavam com a redação de um relatório. Da mesma forma que não há duas pessoas iguais, não haverá duas experiências de estágio iguais.

 

Quando falamos da realidade dos estágios curriculares, é preciso envolver uma entidade na equação -- a família do estagiário, a sua estrutura de suporte -- e uma variável importante: a disponibilidade financeira para suportar os custos de uma prestação de trabalho, por mais inexperiente que seja, na qual não há lugar ao pagamento de nenhuma retribuição ou apoio financeiro (embora existam organizações que suportam custos como a alimentação ou o transporte do estagiário).

 

Vejo com muita clareza as diferenças nos dois estágios que realizei: o primeiro, como falo aqui, foi enquanto Técnico de Contabilidade. Este estágio foi realizado na minha localidade de origem, o que me permitia diversas facilidades logísticas e permitia-me, logicamente, retirar o benefício financeiro de não ter custos acrescidos à prestação da minha força de trabalho, pois existia aqui uma estrutura de apoio -- a minha família. Ia, todos os dias, almoçar e dormir em casa, pois estava a cinco minutos da organização do estágio. Recordo-me da disponibilidade mental em "não ter preocupações de maior", não pela idade, mas pela inexistência de encargos de subsistência. 


Deixe-me enquadrá-lo, também, naquele que foi o meu percurso académico: durante a minha licenciatura tive a sorte de poder beneficiar de apoio financeiro, pelos Serviços de Ação Social do Instituto Politécnico onde estudei, sem o qual me seria impossível assegurar uma Licenciatura. Este apoio foi fulcral para o bom aproveitamento que vim a ter ao longo de três anos de educação superior: garantia-me as propinas e o alojamento, em residência de estudantes, em contrapartida do meu bom aproveitamento nas Unidades Curriculares. Garantia-me, também, a disponibilidade mental para me concentrar nas variáveis que eram minha responsabilidade controlar: estar atento às aulas, estudar e aprender convenientemente para me tornar uma melhor pessoa (já que é esse o objetivo das formações superiores) e, também, profissional. Como consegue entender, existiu uma estrutura adicional de apoio: um Serviço de Ação Social. A verdade é que esse apoio apenas cobre as propinas e alojamento em tempo de aulas, excluindo da equação, uma realidade de estágio curricular.

 

A minha segunda experiência de estágio, à semelhança da primeira, foi não remunerada. A diferença gritante foi a necessidade de assegurar alojamento, alimentação, transportes e outras despesas correntes para alcançar um objetivo pré-estabelecido para o meu ciclo de estudos: a realização de um estágio curricular. Sem expor, de forma mais profunda, esta realidade, consigo fazer-me entender quanto à minha ideia: muitas vezes os estágios curriculares incitam à "exploração de mão-de-obra barata", como frequentemente se diz, realidade que acontece quando é pedido a qualquer indivíduo que suporte alguns custos que, segundo a legislação laboral -- para vínculos contratuais ao abrigo da legislação em vigor -- são assegurados pela entidade que contrata um profissional, como forma de assegurar as boas condições de trabalho para o trabalhador, ao nível físico e moral. No fundo, falamos de situações em que o indivíduo paga, literalmente, para trabalhar.

 

Será difícil controlar esta situação, quanto aos estágios curriculares, para finalização de formação superior? Talvez. E talvez terá de continuar a ser um custo a ser suportado pelos estudantes -- já que o serão, sempre, até finalizar as suas formações. Agora, há algo que me vai incomodando no mercado de trabalho:

 

Desde quando se tornou aceitável promover estágios curriculares para licenciados de "pleno-direito", em que a "retribuição" é praticamente só "perspetivas de crescimento profissional" e "possibilidade de trabalhar em empresa de renome"?

 

Para além disso, desde quando é que esta é a alternativa lógica para a impossibilidade de preencher as equipas de trabalho, quando as vagas para estágio profissional se esgotam? No meu ver, e de muitos jovens, não é -- de todo -- o mesmo: quando é que um estágio não remunerado é melhor que um em que é assegurada uma retribuição, ou uma comparticipação do Estado à empresas, para retribuir de forma -- minimamente -- justa o esforço, dedicação e horas prestadas de trabalho a uma organização?

 

Se queremos Pessoas felizes e realizadas no mercado de trabalho, não podemos dar-lhes uma retribuição, benefícios e incentivos como "manobras de diversão", mas pensar nelas como medidas promotoras do bem-estar (em todas as vertentes) das Pessoas das nossas organizações. Comecemos pelos estagiários e pela forma que promovemos essas oportunidades profissionais.

 

Quanto àquelas empresas que promovem estágios não remunerados como se fosse "a última água do deserto", basta começarem a fazer um pequeno trabalho de casa, antes de propor o que quer que seja: os meus trabalhadores viveriam dignamente na localidade em que estamos, sem receber nada em troca? Trabalhariam no máximo das suas competências e bem-estar, sem a retribuição do seu trabalho que habitualmente recebem? Se a resposta for "não" a alguma destas perguntas não proponha um estágio curricular como a única via para um recém-formado se iniciar na sua empresa.

 

O que pensa deste texto? Concordamos nestes pontos que enunciei ou tem uma perspetiva diferente? Fale comigo e faça-me saber.

 

Até ao próximo texto. Espero por si!

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No próximo texto falaremos sobre a Ótica do Nós, focando a lógica da empresa para a promoção de estágios. Procurarei passar por alguns pontos, para mim, relevantes: será que existe consequências quando se promove uma política de rotatividade de pessoal, em regime de estágio? Será vantajoso a utilização de estágios como "periodo experimental" para novos profissionais do mercado de trabalho? Essas e outras questões serão alvo de reflexão, espero por si!