Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Diogo Limão

Recursos Humanos

Recrutamento: Kit de Primeiros Socorros?

kitprimeiros (2).png

 

O "Manel" está ferido!  Depois de já ter participado em vários processos de recrutamento, a sua motivação está a deteriorar-se a passos largos, a luz ao fundo do túnel está a apagar-se e a sede de ser recrutado está a deixá-lo desidratado! O "Manel" apressa-se para pegar no seu Kit de Primeiros Socorros, que construiu com a ajuda de um profissional de Recursos Humanos/Coach. Venha conhecer esse Kit!

 

O "Manel" é uma pessoa como tantas outras: é um individuo com sonhos, metas e objetivos de vida e de trabalho. Têm uma história de vida pessoal e profissional riquíssima, que parece só ele e os que lhe são próximos serem capazes de ver, com clareza. A sua situação é: depois de algum tempo à procura da nova oportunidade profissional, ele comecou a ficar doente. "Tanto trabalho com isto... Vou a tantas entrevistas e nada acontece...", e já não se sente como sentia: ele está ferido, naquilo que lhe é mais valioso nesta fase de transição: a sua autoestima e motivação para seguir em frente de cabeça erguida a cada "não" que recebe.

O "Manel" sente que ao entrar numa farmácia, daquelas com a cura à disposição de quem quiser [candidatar-se a mais um anúncio de emprego] deve pagar com a autoestima de uma pessoa saudável, quando, na sua cabeça, o que existe é o sentimento de que o seu esforço por algo novo não é suficiente.

 

Na verdade, existem por aí muitos "Manéis". E infelizmente uma doença resistente não se cura administrando sempre o medicamento igual. Para ser-se diferente tem de se fazer diferente. Pode parecer cliché mas, num primeiro nível, não temos de ser diferentes dos outros para ter resultados diferentes. Temos de ser diferentes de nós mesmos. Se a nossa estratégia não está a permitir-nos ser recrutados alguma coisa tem de mudar. 

 

Ainda hoje, numa conversa de colegas, partilhei com as minhas colegas: muito grave não é estarmos a ser chamados para uma entrevista, é estarmos a ser chamados e, repetidamente, ver-mos as portas a fecharem-se à nossa frente. Recorrendo a um ditado muito popular, cheio de verdade: "o pior cego é aquele que não quer ver". Agora, isto traduzido naquele léxico que eu conheço do Coaching e do atingimento de objetivos: nesse cenário, quando se tem um nível de autoconhecimento e autoconsciência reduzido, cai-se no erro de se culpabilizar os outros pelos resultados que se está a ter. É de essa forma que, a pessoa em sofrimento, consegue amenizar a dor que sente por as coisas não estarem a resultar como pretendia. Paradoxalmente, para olhar para fora é preciso primeiro olhar para dentro.

 

A pergunta que se impõe será, talvez, como ser-se diferente quando só se conhece o "igual"? Acredito que pesquisar novas formas e ser irreverente ao ponto de as tornar uma realidade é um bom começo. Recorrer a um profissional de Coaching para facilitar o processo é outra forma muito inteligente. Agora, se acedeu a este texto com o intuito de descobrir essas "novas formas" que lhe falei, pode ser que o consiga ajudar a levar alguma coisa de interessante deste texto.

 

Ao longo de dois parágrafos fi-lo ler uma história metaforizada sobre o "Manel", na qual procurei relacionar as dores da procura de emprego, como se dores reais se tratassem. Espere, deixe-me reformular o que disse: as dores do recrutamento são reais. Colocam doentes famílias e pessoas que querem dar ao mercado de trabalho, que por sua vez parece não estar a cooperar. Haverá um Kit de Primeiros Socorros? Talvez, na medida em que fazer coisas diferentes podem trazer resultados, realmente, diferentes. 

 

Deixo-lhe algumas sugestões:

 

1. Eleve a sua autoconsciência

É importantíssimo. Deve conhecer-se melhor do que a pessoa que o está a entrevistar. Isto significa que tem de ter a capacidade de comunicar quem é, da forma mais real e verdadeira possível, para que não permita que a imagem que deixa registada num recrutador é apenas a percebida. Veja a autoconsciência como as suas armas profissionais: sabe quem é, no que é bom e no que tem de melhorar. Investir tempo em conhecer-se garante que não coloca palas nos olhos, culpabilizando outros pelo desempenho que queria ter e não teve. Responsabiliza-o.

Como fazê-lo? Deixo-lhe duas dicas: i) Análise SWOT pessoal (objetivo: conhecer as suas forças, fraquezas, oportunidades e ameaças enquanto pessoa e profissional); ii) Análise em 360º (objetivo: conhecer a perceção que os outros que se relacionam consigo têm de si. Quanto mais essa perceção for idêntica à sua melhor).

 

2. Conheça os seus valores profissionais

Se a autoconsciência representa as armas que têm à sua disposição, então, conhecer os seus valores profissionais é, de facto, a bússula da sua carreira. Quem conhece os seus valores não irá, certamente, candidatar-se a qualquer coisa, disparando para todos os lados, na esperança que o recrutador veja em si coisas que não existem. Saiba o que o move e verá que transmitirá ao recrutador quem é enquanto profissional de uma forma que mais segura e numa linguagem que, quando descodificada pelo recrutador, será equivalente ao falar de "valores de cultura". Este conhecimento fá-lo, também, ter maior facilidade para responder à questão do ponto seguinte.

 

3. Responda à pergunta: qual a razão para...?

Seja criança, novamente, voltando à idade dos "porquês"! Questione-se porque faz o que faz, porque trabalha na sua área, pense sobre o que poderá estar, realmente, por detrás da sua vontade de mudança. Se soar cliché, volte a perguntar qual a razão, realmente, até a verdade ressoar em si. Muitas vezes não está a procurar emprego na empresa X porque se licenciou em na área Y. Relacionando com os valores profissionais, poderá estar a candidatar-se à empresa X porque esta se dá a conhecer como sendo uma empresa que fomenta o espírito de equipa, a cooperação, a liberdade ou até a conciliação trabalho-família -- valores esses que poderão ser basilares para si e dos quais não quer abrir mão.

Um exemplo muito prático: se me fosse perguntado "Qual a razão pela qual adoras o recrutamento e o Coaching?

[Nível mais superficial da resposta] - Porque enquanto estive na faculdade tive uma experiência num departamento de RH que incluiu as duas vertentes e que me fez mudar a minha vida noutra direção.

[Um pouco mais profundo] - São duas áreas em que posso comunicar com outros, coisa que adoro, e sentir que posso contribuir para vidas mais felizes e realizadas bem como novas perspetivas de carreira.

[Um pouco mais profundo, recorrendo a alguns dos meus valores] - Sinto-me feliz e realizado nessas duas áreas porque o meu trabalho tem Significado. Sinto que posso contribuir (Contribuição), dar de mim aos outros. Posso ser verdadeiro (Verdade) com a minha melhor versão de mim e pôr à disposição do meu trabalho características que vejo em mim: a empatia, comunicação e sentido de humor para conseguir criar melhores relações de trabalho.

 

4. Reescreva a sua narrativa

A forma como nós transmitimos a nossa história é decisiva para os resultados que temos na nossa procura de emprego. Quanto mais "nãos" uma pessoa recebe, durante a sua procura de emprego, mais negro fica todo o cenário que envolve a história profissional de uma pessoa. Muitas vezes, apenas porque a motivação necessária para tornar o discurso cativante falta.

Por ser grande defensor da PNL (Programação Neuro-Linguística), defendo que as nossas palavras vão moldar os nossos comportamentos e, por isso, é de extrema relevância tomar atenção à narrativa que dizemos a nosso respeito, em ambiente de entrevista. Como é o seu discurso? Como faz referência aos seus feitos? Estão os sentimentos negativos que a sua procura de emprego lhe geram, a influenciar negativamente a perceção que os recrutadores têm de si?

Reflita nisso e escreva-a numa folha à parte. Leia e veja se lhe trás benefícios assim ou de outra forma. Já sabe: se houver uma melhor forma de transmitir a sua história, reescreva-a e saiba-a muito bem.

Atenção que não lhe estou a pedir para alterar os factos, mas sim para tomar consciência se há uma melhor forma de os transmitir. As pessoas são cativadas e atraídas pela verdade -- por algo que bata certo, como uma bonita melodia -- e conseguem detetar mentiras e meias-verdades.  

 

5. Dedique-se ao LinkedIn e use-o de forma inteligente

Dedique mais tempo a completar o seu perfil e a obter conhecimentos sobre como melhor utilizar a rede e, não menos importante, sobre os melhores comportamentos para potenciar a sua imagem digital. 

Desde completar o perfil na lógica de se tornar mais atrativo e aparecer com maior rapidez no topo da lista de resultados aos comportamentos a ter, como por exemplo: sempre que envia um convite de conexão dever-se acrescentar uma pequena mensagem ao pedido, antes de enviar. Desta forma mostra cortesia e, acredite, já está a fazer diferente da maioria dos utilizadores da rede.

 

6. Reformule os seus materiais de auto-promoção

Sim, falo de CV e restantes meios de promoção (LinkedIn, como referi anteriormente, mas também perfis de sites de emprego, etc.). A melhor dica que tenho para lhe dar é munir-se da contribuição de um profissional de RH, caso pretenda dicas já!. Contudo, todo o esforço nesta tarefa irá por água a baixo se não tiver todo um trabalho, feito em si próprio, já feito -- e bem feito. O CV e os outros meios servem para levá-lo até à entrevista, depois disso, valerão de pouco. Pode ter o CV mais bonito do mundo mas não cativar o recrutador durante a entrevista. Deve estar preparado. Existem várias dicas que pode seguir, deixo-lhe algumas aqui e aqui.

 

7. Tenha um foco e seja consistente

Eu não sou defensor de "disparar em todas as direções". Dessa forma só está a criar mais ansiedade do que aquela que é natural em todo o processo. Deverá candidatar-se com foco: saber o que quer é meio caminho andado para fazer uma escolha acertada.

Depois, nem sempre poderá socorrer-se da motivação. Acredito que poderá concordar comigo nesse aspeto. Para os momentos em que a automotivação falham, deverá estar presente a consistência, tanto ao nível da procura de emprego tradicional como digital, recorrendo ao LinkedIn. Como partilhei consigo no início do texto, não há formulas mágicas mas, com muita certeza, existem comportamentos que, se consistentes, serão potenciadores.

Seja consistente a enviar CVs; a conversar com pessoas que o possam referenciar; a aumentar a sua rede profissional; a dar aos outros, disponibilizando a sua ajuda, porque não sabe quando os outros se lembrarão de si para retribuir o "favor".

 

 

Quanto à doença do recrutamento, falarei com o "Manel" -- a nossa personagem fictícia -- e partilharei com ele que a melhor forma de se precaver dos sintomas é antecipá-los, mantendo-se atento ao mercado e a praticar comportamentos potenciadores da empregabilidade, antes de eles serem vistos como SOS.

 

Espero que este artigo tenha contribuído para a sua procura de emprego e, se está nessa atividade -- que deverá ser ATIVA -- desejo-lhe que encontre a sua nova opotunidade com muita rapidez!